Filosofia e Teologia

Filosofia e Teologia

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

FILOSOFIA

FACULDADE SÃO BENTO DA BAHIA
LICENCIATURA EM FILOSOFIA
Filosofia da Natureza
Professor: Paulo Vasconcelos
Graduando: Gildevan Pinto Rocha

Relação Homem/Natureza na cosmogonia mítica: os mitos da criação do universo

Na perspectiva cosmogenica, o universo se encontra em expansão; na medida em que avança mostra-se concriativo e auto-organizativo. Ele não atingiu sua perfeição, está ainda nascendo e se aperfeiçoando. É nesse ambiente mítico que a cosmovisão traz um campo de representações de diferente natureza, que formam a imagem do universo que uma sociedade projeta para orientar-se e para situar o lugar do ser humano no conjunto dos seres. Essa abordagem cosmológica estrutura-se no âmbito místico e simbólico da realidade.


Origem do mundo e da humanidade (segundo o livro sagrado do Gênesis)

No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas.

Então Deus disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra. E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher. E Deus os abençôo e lhes disse: sejam fecundos, multipliquem-se, encham e submetam a terra; dominem os peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam sobre a terra. E Deus disse: vejam! Eu entrego a vocês todas as ervas que produzem semente e estão sobre toda a terra, e todas as árvores em que há frutos que dão semente: tudo isso será alimento para vocês. E para todas as feras, para todas as aves do céu e para todos os seres que rastejam sobre a terra e nos quais há respiração de vida, eu dou a relva como alimento. E assim se fez. E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã: foi o sexto dia. (Gn 1, 1-2.26-31)

A narrativa da criação não é um tratado científico, mas um poema que contempla o universo como criatura de Deus. Foi escrito pelos sacerdotes no tempo do exílio da Babilônia (586-538 a.C.) e procura salientar vários pontos. Primeiro, que existe um único Deus vivo e criador. Segundo, que a natureza não é divina, nem está povoada por outras divindades. Terceiro, que o ponto mais alto da criação é a humanidade: homem e mulher, ambos criado à imagem e semelhança de Deus. E a humanidade é chamada a dominar e a transformar o universo, participando da obra da criação.

Noutra situação mítica, observe a curiosa narrativa inventada pelo cientista David Browner, contabilizando percentualmente os bilhões de anos da vida de Gaia (terra) em seis dias (referencia à narrativa Bíblica do Gênesis) para demonstrar, ao cabo, que, na história de Gaia, a existência da vida humana é um episódio breve e recente:

No cenário de Browner, a terra é criada ao domingo á zero hora. A vida, na forma das primeiras células bacterianas, aparece na terça-feira de manhã, por volta das 8 horas. Durante os dois dias e meio seguintes, o microcosmo evolui, e por volta da quinta-feira à meia-noite, está plenamente estabelecido, regulando todo o sistema planetário. Na sexta-feira. Por volta das dezesseis horas, os microorganismos inventam a reprodução sexual, e no sábado, o último dia da criação, todas as formas de vida visíveis se desenvolvem.

Por volta de 1:30 da madrugada do sábado, os primeiros animais marinhos são formados, e, por volta das 9:30 da manhã, as primeiras plantas chegam às praias, seguidas, duas horas mais tarde, por anfíbios e por insetos. Dez minutos antes das dezessete horas, surgem os grandes répteis, perambulam pela Terra em luxuriantes florestas tropicais durante cinco horas, e então, subtamente, morrem por volta por volta das 21:45. Enquanto isso, os mamíferos chegam à terra no final da tarde, por volta das 17:30 e os pássaros já á noitinha, cerca de 19:15 horas.

Pouco antes das 22 horas, alguns mamíferos tropicais que habitavam árvores evoluem nos primeiros primatas; uma hora depois, alguns destes evoluem em macacos; e por volta das 23:40 aparecem os grandes símios antropóides. Oito minutos antes da meia-noite, os primeiros símios antropóides do sul se erguem e caminham sobre duas pernas. Cinco minutos mais tarde, desaparecem novamente. A primeira espécie humana, o homo habilis, surge quatro minutos antes da meia-noite, evolui no homo erectus meio minuto mais tarde e, nas formas arcaicas do homo sapiens, trinta segundos antes da meia-noite. Os Neandertais comandam a Europa e a Ásia de quinze a quatro segundos antes da meia-noite.finalmente, a espécie humana moderna aparece na África e na Ásia onze segundos antes da meia-noite. A história humana escrita começa por volta de dois terços de segundo antes da meia-noite.

Numa linguagem e abordagem mais precisamente filosófica, Higino, em uma composição poética intitulada “o filho da inquietação”, transmite-nos um belo e muito antigo relato. Trata-se de um mito que apresenta o ser humano saindo das mãos de um oleiro, que no caso é a Inquietação:

Esta nos é apresentada em certa ocasião atravessando um rio e enxergando um lugar onde havia argila. Inquietação pega um punhado de barro e lhe dá forma. Ao terminar fica refletindo no que havia feito. Nesse exato momento, chega Júpiter. Inquietação pede ao deus que infunda espírito em sua imagem de argila. Júpiter atende, em seguida, Inquietação quer dar nome à sua obra. Júpiter, porém, a proíbe, porque acha que o homem tem o direito de escolher o próprio nome, já que lhe foi infundido o espírito. Enquanto discutem, Tellus, a Terra, levanta-se e exige que a imagem receba seu nome, pois esta havia sido elaborada a partir de um pedaço de seu corpo. Nessas alturas da discussão, os contendentes decidem pegar saturno como juiz, e este emite equitativamente a sentença: Tu, Júpiter, deves recuperar o espírito após a morte, pois lhe infudiste o espírito; tu, Tellus, já que porvidenciaste o corpo, deves acolhe-lo novamente; Inquietação, porém, como foi a primeira a ter a idéia de fazer a imagem, deve possuí-la enquanto viva. Todavia, no que diz respeito à atual discussão sobre o nome, ela deve chamar-se homo, pois foi feita do húmus (terra).

Temos aqui, diante desses dados mitológicos de abordagem cósmica o ápice da vida do mito, a sua dimensão simbólica e mística na construção da realidade.


Bibliografia:

OLIVEIRA, Jelson; BORGES, Wilton. Ética de Gaia: ensaios de ética socioambiental. São Paulo: Paulus, 2008.

MARDONES, José María. A vida do símbolo: a dimensão simbólica da religião, trad. Euclides Martins Balancin, São Paulo: Paulinas, 2006. (coleção espaço filosófico).

BOFF, Leonardo. O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade. Petrópolis: Vozes, 9ª Ed. 1998.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A TV e o Sagrado


PUC – PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS
CURSO DE TEOLOGIA
DISCIPLINA DE PASTORAL DA COMUNICAÇÃO
ACADÊMICO: Fr. JOSÉ FÁBIO REIS DE OLIVEIRA, CSSR

A TV e o Sagrado

Muitas das vezes quando ligamos nossa TV e começamos a procurar um programa, nos deparamos com programas inadequados que não condizem para a educação: religiosa, cultural e cidadã. A televisão brasileira está passando por um dilema sem rumo, encontramos em muitos canais, um sistema desenfreado de programas religiosos que muitas das vezes fazem do Sagrado um verdadeiro mercado, fazendo de Deus produto de mercadoria para manipular a sociedade que não conhece o sentido do conceito de religião.
Assim, acontece com muitos dos canais da televisão brasileira que fazem a opção pela programação religiosa, claro, nada contra essa opção, ao contrário, o meio de comunicação, seja a TV, jornal, Rádio ou Internet ajudam à sociedade também no sentido da evangelização e de formar uma boa consciência cidadã, desde que acha programas úteis e educativos. O que não pode é vermos e ficarmos calados, vendo grupos utilizando os meios de comunicação para vender o Sagrado e fazer de Deus mercadoria, com uma espécie de manipulação, ofendendo ao Sagrado.
Igreja não é mercado e Deus não é mercadoria, onde as pessoas recebem o produto e pagam por ele, como muitas das vezes acontecem nas igrejas que a pessoa diz que recebeu a graça e depois são induzidas a contribuir, ou melhor, a pagar pela graça. Pois bem, o verdadeiro sentido de religião é ligar a pessoa a Deus, sem manipulação, medo e opressão, onde as pessoas sintam-se livre para encontra-se com Deus. Devemos tomar muito cuidado, estamos vivendo uma onda desenfreada de programações anti-religiosa que não condiz com uma fé baseada em fundamentos concretos que edifica a pessoa para Deus.
Precisamos nos conscientizar quais programas religiosos estão condizendo para a edificação do bem, uma coisa é a fé com razão, esclarecida e fundamentada. E outra é a fé emocional que muitos aproveitam para dizer que é o Espírito Santo de Deus que está agindo na vida da pessoa. Cuidado isso não é fé, mas sim manipulação, aproveitando do emocional da pessoa, ou até mesmo de momento difícil que a pessoa esteja passando.

domingo, 24 de outubro de 2010

O Ato de Fé em Santo Tomás de Aquino

PUC – PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS
CURSO DE TEOLOGIA
DISCIPLINA DE TEOLOGIA FUNDAMENTAL II
ACADÊMICO: FR. JOSÉ FÁBIO REIS DE OLIVEIRA, CSSR





SUMÁRIO

1Introdução...................................................................03
2 O Ato de Fé em Santo Tomás de Aquino.................04
3 Conclusão....................................................................09
4 Referências..................................................................10

1 Introdução

Neste trabalho da disciplina de Teologia Fundamental II do Curso de Teologia, não tendo caráter exaustivo, procuraremos mostrar uma viva investigação acerca do Ato de Fé em Santo Tomás de Aquino e como ele contribuiu para o esclarecimento da fé na história da Igreja.
Santo Tomás de Aquino que nasceu em 1225 em Roccaseca, aos cinco anos foi levado ao converto de Monte Casino para ser educado pelo seu tio abade Sinibaldo, em 1236 foi para Nápoles para estudar artes liberais do Trivio, Gramática, Retorica, Dialética, Aritmetica, Geometria, Astronomia e Música. Em 1243 vestiu o hábito de São Domingos Maior de Nápoles. Durante sua vida dedicou-se sempre aos estudos filosóficos e teológicos, sendo a Suma Teológica sua maior Obra, a qual abordaremos neste trabalho com o tema: Do ato de fé: Volume V: Questões II; Artigos: I, II e IX.
No primeiro artigo apresentaremos “o que é crer, ato de interior da fé”. No segundo mostraremos se “o ato de fé se distingue convenientemente em ato de crer a Deus, crer Deus e crer em Deus”. Já no nono artigo relataremos se “o ato de fé é meritório”.
Em outras palavras, a Suma Teológica foi e continua sendo uma grande riqueza para a teologia, ela que foi escrita por Santo Tomás que “possui um pensamento próprio e vigoroso, através do qual confronta-se com todos os demais autores, aceitando-os, completando-os, corrigindo-os,recusando-os, conforme o caso, com uma serena independência que não admite transigir com o que lhe parece ser verdade. E surge daí um todo lógico e coeso, uma linguagem nova, na qual a clareza e a simplicidade seguido a novidade e a pujança.”
Portanto, pretendemos com esse trabalho apresentar o interesse de Santo Tomás pela virtude da fé e o valor teológico para o esclarecimento da fé, com já dizia Santo Tomás de Aquino: “... é impossível fazer teologia independentemente da fé. Só a fé permite colher Deus que se dá e se revela; é pois a única que pode fornecer um objeto real a esse saber.”

2 O Ato de Fé em Santo Tomás de Aquino

Nesta primeira parte do trabalho sobre o Ato de fé baseado na Obra Suma Teológica de São Tomás de Aquino veremos a Questão II. Volume V da Suma Teológica que apresenta dez artigos. Sendo que abordaremos neste trabalho apenas os artigos I e II e IV.
Segundo a introdução da Suma teológica as regras estabelecidas no prólogo, o tratado da Fé, primeira virtude teologal, estuda primeiro a fé em si mesma, ... o estudo da fé em si mesma é um dos trechos mais brilhantes da teologia tomista; seu alcançe é considerável, não só para a moral, mas ainda para a psicologia e a teoria do conhecimento. Considera o objeto da fé, o ato de fé interior e exterior, o “habitus” da fé, a virtude da fé nos que a possuem, em causa e em seus efeitos. A “veritus prima”, objeto da fé, é, ao mesmo tempo, o pórtico monumental da fé, por onde se penetra no tratado tomista da virtude. O modo com que o Aquinate faz descansar a certeza da fé sobre a verdade da revelação divina, a um tempo objeto, meio e motivo da fé, é característico de sua maneira de pensar em matéria sobrenatural.
Assim, vejamos como São Tomás apresenta na Suma o Ato de fé nesses três artigos da questão II, volume V.
Artigo I
O artigo I vai mostrar “ se crer é cogitar com assentimento”. Daí, discute-se assim. Parece que crer não é cogitar com assentimento.
1 – Pois, a cogitação implica investigação; porque cogitar é quase coagitar, ou agitar simultaneamente. Ora, Damasceno diz ser a fé um assentimento não indagativo. Logo, cogitar não pertence ao ato de fé.
2 – Demais. A fé se funda na razão, como a seguir se dirá. Ora, cogitar é ato da potência cogitativa, que pertence à parte sensitiva. Logo, a cogitação não pertence à fé.
3– Demais. – Crer é ato do intelecto, porque o seu objetivo é a verdade. Ora, parece que assentir,
como consentir, não é ato do intelecto, mas da vontade. Conforme já se disse. Logo, crer não é cogitar com assentimento.
A Suma Teológica também abrange o pensamento de Santo Agostinho. Vejamos o que ele nos diz:
Mas, em contrário, Agostinho define assim crer.
A palavra cogitar pode tomar-se em tríplice acepção. Primeiro, em comum, para significar qualquer consideração atual do intelecto. Assim, Santo Agostinho diz: Pela que denomino integência é que inteligimos cogitando. Noutra e mais própria acepção, chama-se cogitar à consideração do intelecto acompanhada de certa investigação, antes de alcançada a perfeição do mesmo, pela certeza da visão. E neste sentido Agostinho ensina: não se diz que o Filho de Deus é cogitação, mas sim, o verbo de Deus. Porque, quando a nossa cogitação, alcançado da ciência e é por ele informada, o nosso verbo é verdadeiro. Por onde, o verbo de Deus deve ser compreendido como sem cogitação sem nada de formal, que possa ser informe. E assim, sendo chama-se propriamente cogitação ao movimento da alma, que delibera, ainda não tornado perfeito pela plena visão da verdade. Ora, esse movimento pode ser da alma, que delibera sobre intenções universais, o que pertence à parte intelectiva ou sobre intenções particulares, o que pertence à parte sensitiva. Por onde, cogitar na segunda acepção, é tomado pelo ato do intelecto deliberante; na terceira, pelo ato da virtude cogitativa.
Se, pois tomarmos a palavra cogitar em comum conforme à primeira acepção, a expressão cogitar com assentimento não significa tudo quanto a crença essencialmente implica. Pois, nessa acepção, também quem considera no que sabe ou intelige cogita com assentimento. Tomado, porém na segunda acepção cogitar implica na essência total o ato da crença. Pois, certos dos atos pertinentes ao intelecto implicam um firme assentimento sem a tal cogitação. Assim, quando consideramos o que sabemos ou inteligimos, essa consideração já é informada. Outros atos do intelecto, porém importam, por certo, numa cogitação informe sem firme assentimento. Quer por não penderem para nenhuma parte, como se dá com quem duvida; quer, por penderam mais para uma parte, mas dependerem de algum deve sinal, como sucede com quem suspeita; quer, por aderirem a uma parte, mas com temor de que a outra seja a verdadeira, como acontece com quem opina. Ora, o ato de crer implica a adesão firme a uma das partes. Por aí, o crente convém com que sabe e intelige. E, contudo, o seu conhecimento não é perfeito, pela visão manifesta; por onde, convém com o de quem duvida, suspeita e opina. E, assim, é próprio de quem crê cogitar com assentimento. E por isso, o ato de crer distingue-se de todos os atos do intelecto, relativos à verdade e à falsidade.
A fé não implica a investigação da razão natural, demonstrativa daquilo em que se crê. Implica, porém uma certa investigação daquilo pelo que o homem é levado a crer; por exemplo por ter sido dito por Deus e confirmado por milagres.
Cogitar, aqui, não se toma como ato da virtude cogitativa, mas enquanto pertencente ao intelecto, como se disse.
O intelecto do crente é determinado a um só objeto, não racional, mas voluntariamente. Por onde, assentimento, aqui, se toma pelo ato do intelecto, enquanto é, pela vontade, determinado a um objeto.
Artigo II
O artigo II apresenta se o ato da fé se distingue em ato de crer a Deus, crer Deus e crer em Deus. Assim, parece que se distingue inconvenientemente o ato de fé em ato de crer a Deus, crer Deus e crer em Deus.
1 – Pois, a cada hábito corresponde um ato. Ora, a fé, sendo virtude, é um hábito. Logo, é inconveniente admitirem-se vários atos de fé.
2 – Demais o comum a todos os atos de fé particular. Ora, crer a Deus está compreendido em geral em todo ato de fé, porque esta se funda na verdade primeira. Logo, parece inconveniente distingui-la de outros atos também de fé.
3 – Demais o que também convém aos infiéis não pode ser considerado de fé. Ora, crer na existência de Deus também os infiéis o crêem. Logo, não deve ser considerado ato de fé.
4– Demais move-se para o fim é próprio da vontade, cujo objeto é o bem e o fim. Ora, crer é ato, não da vontade, mas do intelecto. Logo, não se deve estabelecer diferença nenhuma no ato de crer em Deus, o que implica movimento para o fim.
Além, do pensamento de santo Tomás, vejamos o que diz Santo Agostinho
Mas, em contrário, Agostinho faz a distinção referida.
O ato de toda potência ou hábito é considerado relativamente à ordem entre a potência ou o hábito e o seu objeto. Ora, o objeto da fé pode ser considerado à tríplice luz. Pois, crer, sendo ato próprio do intelecto, enquanto movido pela vontade de assentir, como já dissemos, o objeto da fé pode ser considerado, quer em relação ao intelecto mesmo, quer à vontade motora do intelecto. Ora, se o consideramos em relação ao intelecto, dois elementos podemos distinguir no ato de fé, como dissemos. Um é o seu objeto material, e então se diz que é um ato de fé crer Deus; porque, como já dissemos nada nos é proposto a crer senão enquanto diz respeito a Deus. Outro é a razão formal do objeto, que é como o meio pelo qual assertimos nele, como crivel; e então se considera ato de fé crer a Deus; pois, conforme já dissemos, o objeto formal da fé é a verdade primeira a que o homem adere, afim de por ela assentir no que crê. Se, porém consideramos, ao terceiro modo, o objeto da fé, enquanto é o intelecto movido pela vontade, então consideramos ato de fé crer em Deus. Pois, a verdade primeira de refere à vontade, enquanto ela exerce a função de fim.
As três distinções feitas não designam atos diversos de fé, mas um só e mesmo ato mantendo relações diversas com o objeto da fé.
Crer Deus não cabe aos infiéis, enquanto consideramos ato de fé. Pois, não crêem Deus existente dependentemente das condições determinadas pela fé. Por onde, nem crêem verdadeiramente Deus, pois, no dizer do Filósofo, a ausência do nosso conhecimento, em relação aos seres simples, consiste só em totalmente não os atingirmos.
Como já se disse, a vontade move o intelecto e as mais potências da alma para o fim; e neste sentido é considerado ato de fé crer em Deus.
Artigo IX
O artigo IX discute-se assim. Parece que crer não é meritório.
1 – Pois, o princípio do mérito é a caridade, como já se disse: Ora, a fé como a natureza é um preâmbulo à caridade. Logo, assim como um ato natural não é meritório, porque pelas nossas faculdades naturais não merecemos, também não o é o ato de fé.
2 – Demais. Crer é meio tremo entre opinar e saber ou considerar no que se sabe. Ora, a indagação científica não é meritória, como também não o é a opinião. Logo, também não é meritório crer.
3 – Demais. Quem assente pela fé em algum princípio, ou tem causa suficiente que o induz a crer, ou não a tem. Se tem causa suficiente que o leva a crer, essa crença não lhe é meritória, por já não ser livre de crer ou não. Se ao contrário, não tem causa suficiente, que o leve a crer, a sua crença é uma leviandade, conforme àquilo da Escritura. Aquele que crê de leve é leviano de coração; e, portanto, a crença não é meritória. Logo, de nenhum modo, é meritório crer.
Mas, em contrário, diz a Escritura: os santos, pela fé, alcançarão as promessas. Ora, tal não se daria se, crendo, não merecêssemos. Logo, o ato mesmo de crer é meritório.
Como já dissemos, os nossos atos são meritórios, enquanto procedentes do livre arbítrio movido pela graça de Deus. Por onde, todo ato humano, dependente do livre arbítrio e referido a Deus, pode ser meritório. Pois, crer é ato do intelecto, que assente à verdade divina, por império da vontade, movida pela graça de Deus; e assim, depende do livre arbítrio ordenado para Deus. Logo, o ato de fé pode ser meritório.
A natureza está para a caridade, princípio do mérito, como está a matéria para a forma; ao passo que a fé está para a caridade como disposição precedente à última forma. Ora, é manifesto que o sujeito ou matéria, nem qualquer disposição precedente, pode agir em virtude da forma, antes de recebê-la. Mas depois de havê-la recebido, tanto o sujeito como a disposição precedente age em virtude dela, princípio principal do agir. Assim, o calor do fogo age em virtude da forma substancial. Por onde, nem a natureza nem a fé, sem a caridade, podem produzir um ato meritório; mas, a caridade sobreveniente torna meritório o ato de fé, bem como o da natureza e do livre arbítrio natural.
Dois elementos podemos considerar na ciência: o assentimento que dá o sujeito, que sabe, àquilo que sabe, e a consideração da coisa sabida. O assentimento à ciência não depende do livro arbítrio, porque o ciente está obrigado a assentir, por força da demonstração. Logo, o assentimento à ciência não é meritório. Porém, a consideração atual da coisa sabida depende do livre arbítrio, pois, o homem pode considerar ou não. Portanto, a consideração da ciência pode ser meritória, quando referida ao fim da caridade, é à honra de Deus ou à utilidade do próximo. Ora, na fé, tanto esta utilidade como a honra de Deus dependem do livre arbítrio. Logo, tanto em relação a esta como àquela, o ato de fé pode ser meritório. A opinião, porém, não implica firme assentimento, por ser débil e fraca, segundo o Filósofo. Por isso não procede da vontade perfeita; e, portanto, quanto ao assentimento, não participa quase da essência do mérito. Mas, por parte da consideração atual, pode ser meritória.
Quem crê tem razão suficiente que o leva a crer; pois é levado tal pela autoridade da doutrina divina, confirmada pelos milagres; e o que mais é pela moção interior e convidativa de Deus. Portanto, não crê com leviandade. Contudo, não tem causa suficiente que o leve, a saber; o que, portanto, não elimina essencialmente o mérito.
Portanto, vimos que São Tomás nesses três artigos mostra com clareza sua forma de pensar sobre o ato de fé, esclarecendo a virtude da fé e dando suporte firmes e coerentes para a sustentabilidade de uma fé esclarecida e com razão.

3 Conclusão

Diante do que foi apresentado sobre a ato de fé em Santo Tomás de Aquino baseado na questão II, artigos I, II e IX do volume V da Suma Teológica, podemos constatar que o ato de fé em Santo Tomás de Aquino é algo aprofundado com argumentos teológicos concisos que indica a esclarecer a fé ajudando a humanidade a compreender a fé com razão, na certeza de que a fé e a razão devem estar em harmonia. “Doutra parte a fé fortifica a razão e a supre... onde acaba o conhecimento da razão começa o da fé, que não destrói o primeiro, mas dá-lhe novos alentos e novo vigor, novas certezas e abre, horizontes de visões insuspeitadas,” isso porque embora a fé e a razão sendo complementares, não quer dizer que a fé esteja submissa a razão, ao contrário a fé tem sua própria autonomia.
Assim, Santo Tomás de Aquino mostra que a fé “é em mim uma elevação de inteligência ao mistério desse super-ser que me fala. Virtude que se chama teologal, no sentido preciso da palavra, pois antes de tudo me confere uma participação na natureza divina. De outro modo, como dialogar?” Santo Tomás de Aquino quer dizer que a fé , a primeira das três virtude teologais, é uma elevação da inteligência e através da fé que a Palavra de Deus pode ser ouvida e recebida, daí nasce a teologia, porque a “ fé evidentemente não é como um corpo estranho em meu organismo, como um conjunto de proposições inertes em meu espírito, em meu coração, como diz a Escritura. Em mim é uma potência, cujos recursos vitais de inteligência são aprendidos numa espécie de apetite biológico para sua plenitude, isto é, para a visão beatífica de Deus, da qual ela é o incentivo terreno.”
Portanto, esse trabalho realizado proporcionou um melhor conhecimento sobre o ato de fé em Santo Tomás de Aquino dentro da sua obra Suma Teológica, e claro aprofundado também em outras fontes de pesquisa.

Referências Bibliográficas

CHENU, Marie-Dominique. Santo Tomás de Aquino e a Teologia – Mestre Espiritual. Tradução de Geraldo Dantas Barreto. Rio de Janeiro: Agir, 1967.

CHIOCCHETTI, Emilio. Santo Tomás. Tradução do italiano de José Pérez. São Paulo: Cultura Moderna, 1936.

TOMÁS DE AQUINO. Suma teológica: Do Ato de fé. Volume 5: Questão II. Artigo I, II e IX. Tradução Alexandre Corrêa. 2ª ed. Porto Alegre: Sulina, 1980.

TORRELL, Jean-Pierre. Iniciação a Santo Tomás de Aquino. Sua Pessoa e Obra. 1 Ed. São Paulo: Loyola, 1999.

Caridade


PUC – PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS
CURSO DE TEOLOGIA
DISCIPLINA DE MORAL RELIGIOSA
ACADÊMICO: FR. JOSÉ FÁBIO REIS DE OLIVEIRA, CSSR





SUMÁRIO

1 Introdução.......................................................................................03
2caridade............................................................................................04
2.1 A caridade, virtude suprema.................................................... 04
2.2 A caridade como prática.............................................................05
2.3 A caridade e esperança...............................................................06
2.4 A caridade e o pecado................................................................08
2.5 A caridade e os desafios do mundo moderno...........................09
2.6 Outras visões e práticas sobre a caridade................................10
Considerações Finais..........................................................................12
Referências.........................................................................................13
1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho, não tendo objetivo de ser exaustivo, procurará mostrar uma investigação acerca da caridade, uma das virtudes teologais. Antes de aprofundar o sentido da caridade vamos conhecer um pouco de como surgiu as virtudes, para assim compreender melhor a virtude da caridade.
Vejamos como as virtudes foram abordadas na história da Igreja de acordo com o dicionário de teologia.


Filão, filósofo hebreu da religião, e Clemente Alexandrino, tentaram reconhecer nas Escrituras do A.T. (Sab 8, 7) a doutrina grega das virtudes cardeais. Santo Ambrósio expressou por primeiro a idéia de que Cristo é o fundamento das virtudes cardeais; São Jerônimo, seu contemporâneo, fala delas como uma quadriga que leva direto a Cristo, o cocheiro fiel. Agostinho, Gregório Magno, João Damasceno, Alcuíno, Rábano Mauro, Pedro Lombardo são os maiores portadores da tradição, e conduziram adiante a idéia de expor os deveres humanos em uma série lógica de virtudes. Enfim, Santo Tomás de Aquino fez oficialmente desta idéia o princípio da estrutura e da divisão de uma doutrina moral filosófica-teológica que inclui seja as quatro virtudes cardeais (prudência, justiça, fortaleza, temperança) seja as três virtudes teologais (Fé, Esperança Caridade-Amor). Por motivo da acuidade e coerência da apresentação de Santo Tomás, ela tornou-se já clássica. Fundamentando-se sobretudo em, Aristóteles, Santo Tomás expôs também explicitamente o conceito de virtude em todos os seus elementos e o inseriu na antropologia teológica.


Podemos observar que a caridade como virtude teologal não é algo novo, mas já era aprofundado pelos padres desde o início da Igreja. Assim, este trabalho tem por finalidade mostrar o que é a caridade, qual é a visão da Igreja e em que fundamentos se baseia a caridade dentro dela; a prática da caridade na vida dos santos, que têm como fundamento principal o amor que vai gerar a caridade. Outros aspectos que abordaremos são a caridade e a esperança; caridade e o pecado. Daí passaremos a conhecer os desafios da caridade dentro do mundo moderno, em que os pontos importantes da caridade facilitam a compreensão dos pontos decisivos e necessários para a vida dos homens, que procuram dar sentido à prática virtuosa, de forma evangélica segundo os frutos da caridade no mundo. E, por fim, abordaremos outras visões e práticas da caridades em outras religiões.
Em outras palavras, este trabalho pretende apresentar que a caridade, antes de tudo, representa a vida do mundo em Cristo, zelando também pelo mundo do homem. Através da caridade, várias virtudes serão frutos da vocação em Cristo.

2 CARIDADE

“Agora, portanto, permanecem fé, esperança, caridade, essas três coisas. A maior delas, porém, é a caridade” (1 Cor 13,13)

2.1 A CARIDADE, VIRTUDE SUPREMA

Seguindo a mesma temática da caridade na visão da Igreja falaremos sobre a caridade como virtude suprema. Em suma, caridade suprema na perspectiva do cristianismo resume no “amor”. Amor de Deus que nos criou, amor de Deus que dá seu filho pra nos salvar (doação na cruz), pelo qual, nos ensinou toda a condição de amarmos a Ele, a nos mesmo e ao próximo. Isto porque Cristo é O revelador da caridade de Deus e é Nele que o amor de Deus se manifesta em nos.
Amor a Deus: a primeira obrigação maior que o ser humano tem é amar a Deus, “e amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda a tua alma, de todo a teu entendimento, e com toda a tua força.” (Marcos 12,30) Isto quer dizer que temos que amar a Deus sobre todas as coisas. Ele nos criou, é infinitamente digno de ser amado e nos amou bem antes de existirmos.
O amor a nós mesmos:
Dentro da virtude da caridade está presente também a amor a si mesmo: mas é evidente que deve ser um amor ordenado, buscando os verdadeiros bens da alma e do corpo em relação á vida eterna. Se alguma vez desejássemos algo que nos afasta de Deus, nós não estaríamos amando-nos de verdade, por nos afastarmos de nosso fim real que é o único que nos pode fazer felizes.

Amor ao próximo: a caridade para com o próximo pressupõe respeitar seus direitos de justiça, mas exige também praticar as obras de misericórdia, ajudando-os em suas necessidades e espirituais, a saber: ensinar aquele que não sabe, dar bom conselho a quem necessitar, corrigir aquele que erra, perdoar as ofensas recebidas, consolar os tristes, sofrer com paciência os defeitos alheios e rogar a Deus pelos vivos e defuntos. E também as materiais, a saber: visitar e cuidar dos enfermos, dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, dar pousada ao peregrino, vestir o nu, redimir o cativo e enterrar os mortos. Observando estas obras não excluímos a ninguém nem mesmo nossos inimigos e consequentemente imitamos o que Jesus fez.
Assim, concluímos que a caridade é a virtude mais importante do cristão, enquanto peregrinamos nesta terra, e será também a nossa ocupação no céu, onde não existirá mais a fé, porque veremos Deus face a face, nem existirá a esperança, porque teremos chegado à meta final, somente permanecerá a caridade, isto é, “o amor”.
2.2 A CARIDADE COMO PRÁTICA

Como vimos anteriormente, a caridade cristã é totalmente baseada na Sagrada Escritura. São Paulo Apóstolo diz que “a caridade de Cristo nos compele.” (2 Cor 5,14). Assim, a caridade torna-se o complemento da Lei da justiça, porque amar ao próximo é fazer todo bem possível, que desejaríamos que fosse feito. Tal é o sentido das palavras de Jesus. “Amai-vos uns aos outros, como irmãos”.
Santo Afonso Maria de Ligório, no século XVIII, em sua obra A Prática do Amor a Jesus Cristo, cita São João Crisóstomo que diz também que os frutos gerados em uma pessoa possuem o amor de Deus:

Quando o amor de Deus se apodera de uma pessoa, produz um insaciável desejo de trabalhar pela pessoa amada; tanto que seja o tempo que, por muitas e grandes que sejam as obras que faça, e por mais longo que seja o tempo dedicado a seu serviço, tudo lhe parece nada. Sempre se aflige por fazer pouco para Deus, e se fosse lícito morrer e consumir-se inteiramente por ele, de bom grado a faria. Por isso, faz sempre que se considera inútil. O amor ensina a pessoa o que Deus merece, e na claridade desta luz divina vê todos os defeitos de suas ações, de tudo teria confusão e sofrimento, se conhecendo que todos os seus trabalhos são bem poucas coisas para um tão grande


Assim, se fôssemos apresentar os pensamentos e as práticas de caridade, passaríamos horas e horas, mas aqui vale ressaltar a figura de Santa Terezinha do Menino Jesus, que tinha a caridade como doação a Jesus, em amá-lo e amar aos irmãos, através do serviço e da oração. A sua prática de caridade tornou-se presente dentro do próprio convento. Conta-se que Santa Terezinha “consistia, sobretudo na completa disponibilidade para com as irmãs. Nunca se mostrava enfastiada quando procurada para algum serviço a fazer ou para alguma ajuda a dar. Ao contrário, embora muito ocupada, mostrava-se contente. Quando, realmente, não podia atender ao pedido, recusava-se com tanta delicadeza a ponto de fazer desaparecer todo sinal de tristeza do rosto de quem não podia ser contentado.” Santa Terezinha, através da caridade, fez uma prática de amor a Deus e a sua comunidade religiosa.
Também podemos destacar a figura de Santa Edith Stein ou Edith Terezsa Hedwig Stein que, a beira da morte no campo de concentração, não deixou de fazer a caridade em nome de Deus e dos irmãos como disse Julius Markan, comerciante hebreu de colônia, que era encarregado de vigiar os prisioneiros:

Entre os prisioneiros que me foram entregues no dia 5, irmã Tereza Benedita me impressionou por sua grande calma e pela paz que difundida em torno de si [...] Irmã Tereza se interessava pelos pobrezinhos, lavava-os e penteava-os, ia buscar comida para eles e cuidava deles em tudo. Durante todo o tempo de sua permanência no campo, dedicou-se a lavar e fazer limpeza, ocupando-se continuamente de obras de caridade, suscitando admiração de todos.


Exemplo de Santidade mesmo nos momentos de dor e sofrimento se doando na caridade no amor perfeito a Deus e ao próximo.

2.3 CARIDADE E ESPERANÇA

A caridade não existe por si mesma, ou melhor isolada, e assim são as virtudes teologais uma depende da outra. A fé só tem sentido acompanhada da caridade e a caridade deve ser acompanhada da esperança.
A caridade ou o “amor” deve ser pensada não somente em socorrer materialmente ou fisicamente os irmãos pobres por várias circunstancias ou doentes e deficientes, mas também espiritualmente. A solidariedade parte no âmbito social seria um grupo, uma entidade, procurando também várias pessoas e não só uma pessoa isolada é uma forma de compromisso com próximo. Portanto, as urgências particulares nunca podem ser esquecidas.

Nunca só a graça. Também contam os componentes humanos. A fé não se define como disposição divina que atua sobre a pessoa deixando-a, por assim dizer, de fora. Não. A atividade humana continua legítima e, até mesmo, necessária, sem ela a fé não será fé (Gl 5,6). Deus e a pessoa, o divino e o humano, a criatura e criador, perfazem um todo incomensurável. A graça não torna inútil a natureza humana. O ser humano colabora intimamente com o criador. Crer é ato autenticamente humano, conforme à liberdade, conforme à vontade, correspondente à dignidade da pessoa. Santo Tomás de Aquino ensina: “crê é um ato da inteligência que assente à verdade divina a mando da vontade movida por Deus através da graça”. (S.Th. 2-2,2,2,9).
Deus age e a pessoa reage: escuta, observa, duvida, interroga, amadurece. E procura uma resposta adequada a proposta divina. Depois de coração sincero acredita e se entrega pela fé. Apropria-se de Deus no mais íntimo do seu ser. A pessoa dá a resposta à proposta de Deus pela fé. Responde pelo temor de Deus, pela obediência amorosa à palavra de Deus, pela confiança absoluta, pelo o testemunho, pela perseverança e em fim pela esperança.
A fé feita só de palavras, de conceitos não tem valor, não proporciona vida e salvação por ela anunciadas. As maiores dificuldades da fé não são racionais, mas, existenciais: o medo do risco de se comprometer com todas as conseqüências que o compromisso implica.as verdades da fé afetam a vida de quem crê naquilo que esta vida tem de mais profundo. Quem crer tem que aderir ao bem, pois sua vontade está aliada a ele. A fé cria o dever de amar o bem, porque além de ser um ato religioso de encontro pessoal com Deus é, também, uma opção decisiva face aos valores criados. Implica, portanto, o dever de obedecer em tudo o Senhor.
Saber, portanto, cada um ler sua história em que se está envolvido com um olhar de fé. A fé pode ser posta à prova. Caminha na noite das crises de sentido. Enfrenta as fragilidades das mediações. Mas, sabe viver com a perplexidade, ou seja, a ausência de certezas e de paradigmas satisfatórios, a busca de caminhos novos, a abertura ao imprevisível, a atenção e a escuta. Compartilha a própria perplexidade como forma de esperança. Resiste como forma de esperança.
Percepção e intuição que devem estar presentes e animar todas as esperanças e os anseios da pessoa de fé. O cerne da esperança cristã hoje é o futuro relacionamento de amor dos filhos com o Pai tendo Jesus como único mediador e caminho (Jo 14, 1-12). As promessas de Cristo não deixaram de ter sentido. É em torno dele, pedra angular, que se organiza o êxito da aventura de cada pessoa. Deus não mudou. Estamos nas mãos daquele que é fiel. Mas, se temos confiança em Cristo somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. (1cor 15,19). “Sem esperança escatológica é impossível viver a vida cristã. Ela seria pura repressão, a mais perversa e refinada.”
O amor é a forma pela qual se expressa a fé. Importa sentir-se incluído naquilo que se professa. Fé e amor, fé e caridade, entrelaçamento e mútua pertinência intrínseca, não obstante, em distinção meramente lógica, ser a função da inteligência anterior à da vontade. A fé ama e a caridade crê e sustenta a esperança.
É na estrutura da fé que as pessoas se sustentam nos seus momentos mais graves. Quando há dúvida no saber, o que há duvida para explicar, a pessoa de fé procura viver com sentidos estas realidades e esperar, abandonando-se ao mistério último, crendo. A fé liberta de todo medo, dá ao cansado e vencido nova força; ao desesperado profundo estímulo, e todos júbilo e redenção. Porque Deus é nosso parceiro e aliado, devemos sentir iluminados por esta fé, esta certeza e esta esperança.

Ajudar as almas: zelo apostólico, caridade pastoral, o imã unificador e totalizador de suas ações, ajudar as almas, minimamente, em nada mesmo, significa descuido das dimensões sociais e comunitárias ou não espirituais. O amor ao irmão se revela como síntese última da vida humana e sua refinada expressão teologal.
A essência do cristianismo consiste no anúncio da presença atuante de Jesus Cristo, no exato ensinamento e doutrina a seu respeito, por força do seu Espírito em sua Igreja que é seu corpo.
Na fé, intelecto e vontade são reciprocamente imanentes. Formam aquela união indivisível, indispensável para o ato de fé. Aliás, a fé a esperança e a caridade interdependem mutuamente em razão do objetivo que buscam; o próprio Deus. Quem crer é em essência uma pessoa que espera. Esperar é crer no amor. Crer é possuir antecipadamente o que se espera.

2.4 A CARIDADE E O PECADO

“O pecado é sempre o homem fazendo-se o deus do homem. Querendo divinizar-se, mergulhou na matéria e no orgulho insensato. Afastou-se dos caminhos de Deus e tornou-se incapaz de reencontrá-los. Imensa nas trevas não mais podia atingir a luz. Segundo São Paulo, já não existia um único justo, um único homem de valor.” Assim, “o pecado é o gesto do homem que recusa radicalmente o amor, ou do homem que se deixa guiar pelos amores mutilares. E desobediência, injustiça, ingratidão em relação a Deus, suma bondade. E recusa do amor. Deus faz tudo por amor de nós; suas exigências nascem do amor, e têm por objetivo o nosso desabrochar na caridade. Pecar é ferir seu amor, contrariá-lo e, de certo modo, desprezá-lo.” Mas, se voltarmos para a misericórdia, o homem que é injusto e pecador sente a necessidade de reparar sua falta como forma de arrependimento, surgindo o que muitas das vezes já ouvimos ou vimos pessoas fazendo práticas de caridade para pagar por um pecado cometido em sinal de arrependimento, ou até mesmo para ter a consciência tranquila. Em que consistiria esse fato? Será a caridade como algo para reparar a ofensas cometidas?
Com isso podemos entender que o cristão deve se esforçar em viver a caridade no mundo, deve se cada vez mais procurar dispor sua vida, principalmente o que tem de mais privado, que seja boa ou má, deve ter um duplo aspecto: o individual e o social. Com efeito, o que o homem tem de moral pessoalmente, tem, por sua vez, importância social, pois dela depende muito a sociedade humana que é o povo de Deus e que, portanto, é chamado a participar da graça de Cristo. Sendo o amor a base para atingir a plenitude de amar a Cristo e ao próximo e a prática da caridade como a reparação das ofensas, sendo os sinais e gestos como amor a Deus e ao próximo já que o humano é condicionado a amar. Vale ressaltar que a caridade não é algo para reparação dos pecados, mas é amor a Cristo e aos irmãos, como é expresso por Denzinger:

A doutrina de Cristo estende o mandamento do amor a todos os inimigos [...] Cristo enviou a todos os homens o Espírito Santo para que este se mova a amar a Deus de todo o coração e a amar-se mutuamente [...] o amor como forma de missão da Nova Aliança e plenitude da lei [...] a ordem evangélica é a ordem do amor; a misericórdia como doutrina fundamental da mensagem messiânica de Cristo e força de sua obra [...]. Todos os fiéis são chamados à perfeição do amor.


2.5 A CARIDADE E OS DESAFIOS DO MUNDO MODERNO

Diante de um mundo moderno em que o individualismo tem se evidenciado, como podemos praticar a caridade? Como a Igreja se coloca diante dessa situação?
Acreditamos que uma das respostas já foi dada pela Igreja com o documento Gaudium et Spes que reflete a revelação a partir da realidade, claro que a Igreja não busca soluções imediatas, até porque ela sempre busca a dignidade humana, respeitando seus limites. Assim, os cristãos diante dos desafios do mundo moderno não devem ser pessimistas, e a Gaudium et Spes apresenta de forma bem clara que a Igreja está no mundo, havendo uma necessidade e obrigação dos cristãos produzirem frutos para a vida no mundo, obrigação que está intrinsecamente vinculada à sublime vocação em Cristo que trouxe para o homem e de seu mundo, tudo o que fosse possível, como homens iluminados pela fé cristã e movidos pela graça. Reafirmando o que a Gaudium et Spes apresenta a dignidade da pessoa humana e dos direitos do homem, da solidariedade, da justiça, social e de diversas ordenações devem realizar-se entre os homens, de como devem incentivar o matrimônio e a vida familiar, do incentivo da cultura humana, da vida econômica e social, das comunidades políticas a até mesmo da comunidade internacional, deve constituir-se, devidamente, dentro do espírito cristão.
Apesar das grandes dificuldades que temos com relação ao mundo moderno ainda ouvimos falar em caridade. Porém, usadas muitas das vezes sem o sentido apropriado, por isso o Papa Pio XII, vai alertar que a “caridade é a palavra às vezes usada livremente para significar uma espécie qualquer de atividade benévola ou filantrópica. Todavia, caridade tem um significado sacro e consagrado. A caridade é diversa de qualquer outro amor humano porque é uma réplica do amor de Cristo para com o homem. ‘Dou-vos um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei.’ São Paulo escreve aos Romanos ‘Ajudai-vos uns aos outros como Cristo vos ajudou para a glória de Deus’ (15, 7). Isto é caridade.”
Portanto, diante desse mundo moderno, o Papa Pio XII ainda vai dizer que desejaria “ver todos os jovens unidos na mente e no coração em alguma obra de caridade. Não se trata de dar dinheiro: trata-se de dar a si mesmo. Tal apostolado reavivar-lhes-ia a fé, daria direção e estabilidade a uma correta atitude diante das coisas frívolas da vida, acordaria a potência do exemplo e contribuiria potentemente para remediar os males da desigualdade social e de raça.” Assim, a “caridade, porém, não deve jamais olhar para trás, mas sempre para frente” até porque o “número das obras realizadas é sempre pequeno enquanto que as misérias presentes e futuras que ocorre consolar, são sem fim.”
Assim, diante dos desafios que encontramos no mundo moderno não deixamos de ter pessoas que lutaram pela caridade em nome do amor de Cristo e do irmão, um exemplo bem claro para a sociedade atual foi Dom Helder Câmara que fez de sua vida um doação aos pobres e abandonados em nome de Cristo, como ele próprio dizia: “A caridade é Amor e Amor és Tu, Senhor Deus! A caridade é infinita como Tu [...]. As injustiças atingem a um nível tal, que a caridade dos nossos tempos consiste, antes de tudo, em ajudar a fazer justiça, sem esquecer que é Amor [...]”

2.6 OUTRAS PRÁTICAS DE CARIDADE

Isto que vimos é a caridade cristã, porém há outras práticas de caridades que devem ser levadas em conta, sobretudo, as das grades civilizações e religiões não Cristãs. Por isso, achamos conveniente abrir um parêntese, pra citá-las neste trabalho.
Caridade na civilização: entre as civilizações antigas destaca a egípcia, ela teve uma idéia humanitária mais elevada. Como? Igualdade na justiça, direitos da mulher e das crianças, direito dos escravos, ajuda devida aos miseráveis, o culto a divindade era ligada à assistência aos pobres. Numa inscrição da V dinastia (2563-2422 a.C) um funcionário declara “Distribuí o pão a todos os famintos do monte Arato, vesti quem estava nu.”
Caridade no Budismo: com suas doutrinas do grande Veículo (Mahayana) o seu conceito de caridade é o da benevolência (maitri). “Não há nada mais poderoso do que a maitri. Jamais o ódio extinguiu o ódio. A benevolência extinguiu o ódio. Esta é a lei eterna.”
Caridade no Hinduísmo: a ética está ligada ao darma que é a conduta boa e justa. O não-apego é um dos motivos fundamentais da ética hindusta. Dela decorre a idéia de se evitar o mal-impureza e da sanção legalista do ato pecaminoso realizado. Para eles o mérito nasce do compromisso do homem com os outros homens e com o mundo. A ação moralmente válida abre-se, assim, para a benevolência ativa maitri, para a capacidade de tolerância em relação a tudo e a todos.
Caridade no Islamismo: dos cincos pilares que sustentam a sua doutrina, o segundo lugar é ocupado pela esmola (zakat), etimologicamente “pureza”, que é a caridade entendida pelo Alcorão como ato que purifica as riquezas da glória mundana e propicia a prêmio eterno. A zakat, como os dízimos judaico-cristãos, é contribuição obrigatória, porém, com fins diferentes. Destina a ajudar os pobres, os escravos que pretendem libertarem-se, os viajantes carentes de meios, os voluntários da guerra santa, assim como a estimular a conversão dos pobres ao islame.
Portanto, como vimos a da caridade está inerente a natureza humana. Não importa a crença, religião ou outra entidade divina. O importante é que todo homem tem tendências para praticá-la, embora não praticamos como devemos praticar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do que foi apresentado sobre a caridade podemos considerar que ela é a virtude primordial na vida dos cristãos, ela é o caminho que deve mover a humanidade nas obras dentro dos conceitos cristãos. Como diz São Bernardo, citado por Santo Afonso na obra A prática de Amor a Jesus Cristo: “Grande coisa é o amor”. Salomão, falando da sabedoria divina, que não é outra coisa senão a caridade chamou-a de tesouro infinito, porque quem tem a caridade torna-se participante da amizade com Deus. E além desses, cita Santo Tomás de Aquino que afirma: “A caridade é a rainha das virtudes; onde reina a caridade, aí aparece todas as outras virtudes, como um cortejo, encaminhando todos a unir-nos mais a Deus. Mas, como diz São Bernardo, propriamente é a caridade a virtude que nos une com Deus”.
Portanto, este trabalho realizado proporcionou para nós um melhor conhecimento sobre a caridade, confirmando que a caridade é uma das virtudes teologais pela qual amamos a Deus e ao próximo, como já dizia São Francisco de Sales: “Não conheço outra santidade senão a de amar a Deus de todo o coração; todas as outras virtudes sem este amor não passam de um montão de pedras.” Ao refletirmos sobre a caridade criamos uma visão maior sobre essa virtude para assim podemos praticá-la e chegarmos ao verdadeiro bem que é amar a Deus e ao próximo.

REFERÊNCIAS

- A Caridade em tamanho grande. Inspetoria São João Bosco. BH MG. 1991.
- Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2008.
- CÂMARA, Helder. Em Tuas Mãos, Senhor! São Paulo: Paulinas, 1986.
- CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 1993.
- Caridade e Esperança. Encíclica do Papa Bento XVI.
- CHINIGO, Michael. Pio XII e os problemas do mundo moderno. Tradução Pe. José Marins. 2. ed. São Paulo: Melhoramentos. 1959.
- DENZINGER, Heinrich. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. Tradução: José Marino e Johan Konings. São Paulo: Loyola, 2007..
- DI BERARDINO, Pedro Paulo. A Solidão em Santa Terezinha do Menino Jesus. Tradução e Revisão Carmelo do Imaculado Coração de Maria e Santa Terezinha. São Paulo: Paulus, 1995.
- Dicionário de Espiritualidade. São Paulo, 2 ed. 1993
- FRIES, Heinrich. Dicionário de Teologia – Conceitos fundamentais da teologia atual. 5. ed. São Paulo: Loyola, 1971.
- GARCIA, Jacinta Turolo. SCIADINI, Patrício. Edith Stein: Holocausto para seu povo. São Paulo: Loyola, 1987.
- LEBRET. L. J. Dimensões da caridade. Tradução M. Conceição Goulart Pacheco. 3.ed. São Paulo: Duas Cidades. 1959.
- LIGÓRIO, Afonso Maria de. A prática de Amor a Jesus Cristo. Tradução Gervásio Fabril dos Anjos São Paulo: Santuário, 1996.
- LIMA SBD, Pe. Marcos de. O Que é a fé?. Loyola. 1998
- PUJOLL, Jayme, Jesus Sanches. Apostolado Veritatis Splendor: A caridade Virtude Suprema

Hipólito de Roma

PUC – PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS
CURSO DE TEOLOGIA
DISCIPLINA DE PATROLOGIA
ACADÊMICO: FR. JOSÉ FÁBIO REIS DE OLIVEIRA, CSSR



Hipólito de Roma





Introdução

Neste trabalho de síntese sobre a Obra da Tradição Apostólica de Hipólito de Roma, não tendo caráter de ser exaustivo, procurarei mostrar que foi a figura de Hipólito e a importância da sua Obra a Tradição Apostólica.
Hipólito foi aquele que defendeu a fé e se dedicou aos estudos das mais puras tradições da igreja nascentes. Ou seja, ele foi um dos padres do inicio da igreja que nos ajuda hoje a compreendermos e conhecemos mais de perto as intenções, exigências e as dimensões da novidade do cristianismo, pois os padres da igreja viveram mais próximos daqueles que conviveram com o mestre. Assim, podemos compreender mais profundamente o que faz parte da autêntica tradição e a distinguir o essencial.
Com outras palavras quero nesta síntese apresentar a liturgia e a catequese em Roma no século III dentro da Tradição Apostólica de Hipólito de Roma, mártir que testemunhou com o próprio sangue a verdade e a força de salvação que encerra a doutrina que pregava.

Síntese da Obra Tradição Apostólica de Hipólito de Roma

Antes de aprofundarmos em conhecer a Obra de Hipólito vamos primeiramente conhecer um pouco de sua vida e qual foi a sua importância para a história da Igreja.
Hipólito de Roma foi de grande personalidade na história da igreja, porém seus dados são bastante confusos. O que se sabe de sua vida é que foi sacerdote da igreja de Roma, fecundo escritor que deixou cartas e diversas composições e foi até mesmo bispo, embora não se saiba identificar exatamente onde foi sua sede.
Ainda como escritor foi considerado erudito, transmitindo o que os manuais oferecem em conhecimento, sem recorrer às fontes e muito menos citá-las. Ele tentou reconstituir a autêntica Tradição Apostólica, escrevendo muito despreocupadamente lembranças e costumes, como veremos a seguir. Tornou-se ainda Moralista. Considerando a época crítica e difícil da igreja, comenta o livro de Daniel, pretendendo levar a confiança em Deus, mesmo quando é perseguido e incompreendido. Como exegeta preocupou-se com o ensinamento que pretendia tirar do texto. Foi bispo, embora alguns ainda os considerava apenas como presbítero do ano de 251, certamente uma hipótese falsa, porque seu martírio foi registrado justamente com o de Ponciano, entre ao s anos de 231 a 235. Mais tarde com a descoberta de uma estatua dar a entender que tinha sido realmente bispo, pois acha-se sentado em cátedra episcopal. E ainda com a descoberta de uma obra importante atribuída a Origens, que se conhecia apenas a primeira parte. Os livros subseqüentes revelaram que o autor era sacerdote romano o qual se havia indisposto com o papa Zeferino e ainda menos contente com a eleição de Calisto para a sucessão, assim, dividiu a comunidade romana fazendo-se eleger bispo de Roma por uma porção influente de presbítero. Portanto, Hipólito foi bispo e o primeiro antipapa da história da igreja.
Muito embora dividido por motivos de rixas doutrinais volta a comunhão quando, juntamente com o papa Ponciano, está a caminho do martírio. Ambos renunciam ao comando da igreja terrestre, para juntos receberem a coroa da santidade na igreja una e santa do Cristo ressuscitado. São celebrados como mártires, confessores da mesma fé, no dia 13 de agosto, data histórica da posição de Ponciano no cemitério dos papas e de Hipólito na via Tiburtina.
Como escritor Hipólito escreveu várias Obras. São elas:
Philosophoumena, Syntagma ou Contra todas as heresias e O Anticristo
Tratados Exegéticos:
Comentário sobre Daniel, Comentário sobre o Cântico dos Cânticos, Historia de Davi e Golias e Homilias sobre os salmos.
Tratados cronológicos:
Crônicas, Computação pascal, Homilias sobre a Páscoa, O Senhor nosso Salvador e As heresias de Natal.
Com relação à Obra “Tradição Apostólica” a qual vamos aprofundar a seguir o seu conteúdo, foi descoberta e Reconstituída podendo assim afirmar que ela foi composta em Roma, e não tem o aspecto românico de tantas aparições sensacionais de manuscritos, como os documentos de Qumrãn nas areias do Egito ou em grutas. Assim, não se trata de uma fórmula que traduza apenas a liturgia romana. Ela pretende transmitir a tradição da igreja e está dividida em três partes nitidamente:

A primeira parte é a constituição da comunidade em seus aspectos hierárquicos, com a sagração e eleição dos bispos e a ordenação de pessoas que desempenham uma função dentro da comunidade cristã (presbítero, diáconos, exorcistas, leitores Etc.).

O ritual de consagração de um bispo precedia pela eleição do candidato. Esta se fazia de maneira mais publica possível e para isso realiza-se na assembléia dominical onde todos os cristãos apontam o novo chefe da igreja. Uma vez escolhido, toda a comunidade estará presente. Juntamente com o conselho presbiteral e todo o clero. Os bispos vizinhos eram convidados e estes é que impõem a mão sobre o novo epíscopo.
Os bispos, os sacerdotes e o povo rezam em silêncio: é o dom de Deus que é celebrado. A vinda do Espírito Santo é que de fato confere o poder de reger a Igreja de Cristo. Guiados pelo Espírito Santo é que os bispos têm o direito de conduzir o rebanho. Um dos bispos presentes é escolhido para presidir a oração e a pronuncia em nome de todos. Pela voz do presidente que exerce seu ministério em nome da Igreja, este consagra o novo bispo.
A fórmula da oração consagratória acentua a função de serviço que o recém-escolhido assume na comunidade e frisa sua sucessão apostólica. No exercício de seu ministério de reger o povo o bispo deve tornar a face de Deus propicia e exercer o poder de perdoar. Sobretudo que seja modelo do rebanho por seu modo de viver.
Pequeno trecho da oração de Sagração de Bispo:
Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, pai das Misericórdias e Deus de toda consolação, que habitas as alturas e baixas o olhar para o que é humilde, tu, que conheces todas as coisas antes de nascerem, tu, que deste as leis da tua Igreja pela palavra da tua graça, elegendo desde o principio a raça dos justos de Abraão... ao Pai e ao Filho, com o Espírito Santo na santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém.
A seguir, a comunidade cristã reunida com o presbitério e os bispos vizinhos presentes, celebram a eucaristia presidida pelo novo bispo. Depois de ter recebido o beijo de paz da parte de todos da comunhão fraterna e reconhecimento de sua dignidade episcopal, o bispo, servido pelos diáconos, começa a grande oração eucarística acompanhado de todo o presbitério. Inicio da Oração Eucarística:
O Senhor esteja convosco. Respondem todos:
E com o teu espírito.
- Corações para o alto!
Já os oferecemos para ao Senhor.
- Demos graças ao Senhor
E digno e justo.
E procede com as outras orações.
Também havia a benção do azeite, ou seja, se alguém oferecer, se consagra como consagrou o pão e o vinho, não com as mesmas palavras, mas com o mesmo espírito. Igualmente ocorria se alguém trouxesse queijo e azeitonas.
Na ordenação sacerdotal, embora esta sendo feita pelo bispo, todo o presbitério impõe as mãos, enquanto que para os diáconos apenas o bispo faz esse gesto. E que os diáconos estão intimamente ligados à pessoa do bispo e como tal lhe é submisso. O presbitério, porém coloca-se a seu lado, participando do seu mesmo sacerdócio e rege com ele o povo de Deus; recebe com ele a mesma graça e o espírito próprio, como os anciãos de Israel partilham o mesmo espírito de Moisés.
Trecho da oração da ordenação sacerdotal:
Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, baixa o olhar sobre este servo e comunica-lhe o Espírito da graça e do conselho do presbítero para que ele ajude e governe o teu povo com o coração puro... Ao Pai e ao Filho, com Espírito Santo na santa Igreja e pelos séculos dos séculos. Amém.
A prece de consagração oferece, em sua profundidade bíblica, uma verdadeira síntese doutrinal sobre o sacerdócio pelo bispo e pelos presbíteros. Tais orações se dirigem sempre ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo, o que evoca a epiclese eucarística.
Já na ordenação diaconal só o bispo impõe as mãos, porque o diácono não é ordenado para o sacerdócio, mas para o serviço do bispo: para fazer o que lhe é por este determinado. Ele, realmente, não participa do conselho do clero; cuida da administração, indicando ao bispo quanto é necessário. Não recebe o Espírito comum do presbítero do qual participam os presbíteros, mas o que lhe é confiado pelo poder do bispo, e é por essa razão que somente o bispo ordena o diácono; contudo sobre o presbítero também os presbíteros imponham as mãos, por causa do espírito comum e semelhante do seu cargo.
Trecho da Oração de ordenação do diácono:
Deus, que criaste todas as coisas e as ordenaste pelo Verbo, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que enviaste para cumprir a tua vontade e revelar-nos o teu desejo, dá o Espírito Santo da graça, da solicitude e do trabalho a este teu servo... Com o Espírito Santo, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.
Hipólito coloca em relevo as funções eclesiais a partir do testemunho que se dá no serviço da comunidade, assumindo a responsabilidade que compete a cada um. O confessor mártires que sobreviveram aos ferimentos que lhes foram impostos por causa da fé quer por parte das autoridades quer da parte de parentes e amigos, recebem a imposição das mãos para que gozem da mesma distinção que os presbíteros. Ou seja, não se imporá a mão sobre um confessor para o diaconato ou para o presbitério, se já tiver sido preso por causa do nome do Senhor do Senhor. Na verdade, a dignidade de presbítero, equivale à honra da sua confissão. Se, porém, for ordenado bispo, ser-lhe-á imposta à mão.
Talvez este modo de proceder se fundamente no fato de muitos cristãos quererem promover os confessores e desejarem para isso torna-los presbíteros. Para evitar que se fizesse do ministério sacerdotal mais uma honra do que um serviço, era-lhes dada a distinção que mereciam por sua coragem em professar a fé, mas sem lhes conferir a ordenação. Esta exige, com efeito, um dom do espírito que não se recebe apenas pelo fato de ter suportado injurias por causa do Cristo. Vejamos:
Uma viúva não é ordenada: é eleita pela simples inscrição do nome, institua-se apenas pela palavra, e que se junte às demais. Não se imponha a mão sobre ela, porque não ofrece a oblação nem exerce a liturgia. A ordenação existe para o clero por causa da liturgia, mas a viúva só é instituída para a oração: esta é de todos.
O leitor será instituído quando o bispo lhe der o Livro; também sobre ele não imponha a mão. As virgens não será imposta a mão sobre ela,: basta a sua decisão para fazer dela uma virgem. Os subdiáconos: será nomeado para seguir o diácono. Se alguém receber o Dom da Cura por uma revelação, não será imposta a mão sobre ele.

A segunda parte nos fala da iniciação cristã: o ensinamento e a noite pascal.

A visão concreta das etapas e os detalhes fornecidos nos permitem uma percepção muito real da vida da comunidade primitiva os que se aproximavam da fé eram trazidos pela primeira vez para ouvir a Palavra.. Todos os membros da Igreja local, a começar pelos leigos, eram empenhados seriamente no exame, na preparação e no acompanhamento dos candidatos. Longe de solicitar a alguém para entrar, quase forçando-os, percebe-se o rigor das exigências evangélicas tomadas como condição para a admissão no catecumenato e o ingresso efetivo na comunidade. Temos detalhes sobre o meio de então e o papel da comunidade eclesial.
Escolhidos os que receberão o batismo, sua vida será examinada: se viveram com dignidade enquanto catecúmenos, se honraram as viúvas, se visitaram os enfermos, se só praticaram boas ações. E, ao testemunharem sobre eles os que os tiverem apresentado, dizendo que assim agiram, ouçam o Evangelho. Desde o momento em que houverem sido separados, seja imposta a mão sobre eles, diariamente, e ao mesmo tempo sejam exorcizados. Aproximando-se o dia em que serão batizados, exorcize o bispo cada um, para saber se é puro. Se algum deles não for bom ou não for puro, seja posto á parte: não ouviu a palavra com fé porque é impossível que o Estranho se oculte sempre. Sejam os batizados instruídos no sentido de que se lavem e se banhem no quinto dia da semana. Se uma mulher estiver menstruada , seja posta à parte e receba o Batismo em outro dia. Jejuem os que receberão o batismo na véspera do sábado; e no sábado, serão eles reunidos em um só local, designado pelo bispo. Ordene-se a todos que rezem e se ajoelhem: impondo sobre eles a mão, exorcizará o bispo todos os espíritos estranhos para que fujam e não tornem jamais; ao terminar o exorcismo, sopre-lhes no rosto. Depois de marcar-lhes com o sinal da cruz a fronte, os ouvidos e as narinas, ele os fará levantarem-se. E permanecerão vigilantes durante toda a noite, e se lerá para eles, e serão instruídos. Não tenham os batizados nada em seu poder, a não ser o que trazem para a Eucaristia: o que se tornou digno deve participar, na mesma hora, da oblação.
Com a prolongada preparação (três anos) permitia verificar se os comportamentos eram realmente de convertidos. Em época de tanto sincretismo, a igreja não podia contentar-se com minicristãos, semiconvertidos. A tarefa de dar testemunho é por de mais séria. Não admite uma fé apenas interior, nem uma religião conforme os moldes de cada individuo. O estilo de vida e até mesmo a profissão devem ser condizentes com a pratica do evangelho, testemunho diante de todos.
E importante colocar em destaque a pratica da oração, seja em comum seja em particular. Após a leitura e a explicação da Palavra de Deus, pelo catequista, é indispensável que cada um assuma como regra de sua própria vida esses ensinamentos e se converta interiormente para lei do Senhor. Assim, ao cessar o catequista rezem os catecúmenos em particular, separados dos fieis, as mulheres tanto as fieis quanto as catecúmenas permanecem rezando, também em particular, em qualquer lugar na igreja. Ao terminar de rezar, não darão a paz porque o seu ósculo ainda não é santo. Saúdem-se, porém, os fiéis reciprocamente os homens aos homens e as mulheres as mulheres: os homens não saudarão as mulheres. Estas cubram a cabeça com um manto; não, porém, tecido de linho, que não serve para cobrir.
O santo Batismo acontecia dentro do ritual tradicional da Igreja. Como também a Confirmação e a Primeira Eucaristia eram celebradas dentro das normas previstas pela Igreja, bem solenizadas.

Já a terceira parte é uma serie de observâncias na comunidade desde a descrição da celebração eucarística até a liturgia das horas e ao sinal da cruz.

Vejamos alguns pontos que julgamos de maior interesse, pois se dar para perceber que Hipólito, passou anotar, sem ordem rigorosa, os costumes em uso no meio da comunidade eclesial desde os tempos primitivos.
Há um bom número de observações a respeito das ceias da comunidade. Ao que parece, eram refeições de caridade, tomadas em comum, afim de consolidar o relacionamento fraterno. Essas refeições são bem distintas da ceia eucarística, apesar da densidade religiosa que encerram. Há uma observação importante a respeito da necessidade de participação: O bispo não pode jejuar a não ser no dia em que todo o povo o faz, pois se alguém promover uma refeição na ocasião em que a comunidade se reúne, ele deve ao menos provar do pão em comum. E sinal de participação na ceia dos fieis, na vida deles, assim como esses participaram da sua eucaristia.
O espírito que ainda anima os cristãos nessas circunstâncias é a troca, o colocar em comum. Pensa-se com especial carinho nos doentes, nas viúvas e nos demais necessitados, levando-lhes presentes (signum) para que tomem parte da reunião, mesmo que condições particulares os obriguem à ausência. Assim, todos aqueles que recebem devem dar com desvelo: se alguém receber algo para levar a uma viúva, a um enfermo ou alguém que se dedique à Igreja, leve-o no mesmo dia; se o não fizer, leve-o no dia seguinte, aumentando com algo de seu o que havia por ter permanecido na casa o pão dos pobres.
Além da eucaristia, reservada aos já indicados e de vida comprovadamente evangélica, há outras celebrações que reúnem todos os irmãos. Aí os catecúmenos são introduzidos na convivência da comunidade e tomam refeição na companhia dos fieis. Essas ceias comuns são altamente educativas e a dignidade com que se fazem deve servir de exemplo. As refeições familiares poderão, à luz desta doutrina, se transformar em verdadeiras celebrações, pela sobriedade, pela alegria do convívio e pelo espírito de união que reina. Assim , quando comerdes, e beberdes, fazei-o com dignidade e não à ebriedade, para que ninguém ria e para que não entristeça pela vossa afronta o que vos convida, mas espere ser digno de que os santos entrem em sua casa: porque vós sois, diz o sal da terra.
Contudo, as ceias e reuniões de toda a comunidade é proposto um programa de orações, distribuídas ao longo das horas do dia. E difícil verificar até que ponto essa programação corresponde à realidade da vida dos fiéis. Em todo caso, mais tarde tornou-se regra de vida para os monges e em seguida para os clérigos.
Hipólito coloca em relevo a prática da oração da manhã, mas ao mesmo tempo adverte os fiéis a respeito da necessidade de se instruírem na fé. Ambas as praticas são apresentadas como meios eficazes para sustentar o cristão na sua luta cotidiana. Todo fiel e toda mulher fiel, ao levantarem-se do sono pela manhã, antes de tocarem o que quer que seja, lavem-se as mãos e rezem a Deus; dirijam-se, somente então, ao trabalho. Se houver instrução da palavra de Deus, prefiram encaminhar-se ao local, considerando em seu coração que é a Deus que ouvem naquele que prega. Todo aquele que rezar na igreja poderá vencer a maldade do dia, eo ir ao lugar da instrução, principalmente se souber ler ou se o catequista estiver presente. Hipólito ainda fala da importância do sinal da cruz dizendo que na tentação, procura sempre fazer, na fronte, piedosamente, o sinal da cruz, pois este é o sinal da paixão conhecido e provado contra ao demônio.

Conclusão

Como vimos Hipólito de Roma foi um homem se suma importância para a Igreja. Sua vida foi sinal presente na construção da história, testemunhando a Tradição deixada pelos Apóstolos, como ele mesmo afirma: Se estes ensinamentos forem recebidos com gratidão e fé ortodoxa, proporcionarão à Igreja a edificação e, aos que crêem, á vida eterna. Aconselho que sejam guardados por todos os que têm o coração puro. Se todos seguirem a Tradição dos Apóstolos que ouviram e souberam conserva-la, nenhum herético ninguém, absolutamente poderá afastar-se do caminho reto. Na verdade, muitas heresias desenvolveram-se porque os chefes não quiseram aprender a doutrina dos Apóstolos, mas, seguindo a sua própria fantasia, fizeram o que quiseram não o que deveram fazer. Se omitimos algo, bem amados, revelá-lo-á Deus aos que forem dignos, ao dirigir a Igreja para que chegue ao porto da paz.
Portanto, a Tradição Apostólica foi uma obra verdadeiramente de testemunho, onde foi vivido e observado os ensinamentos deixado pelos Apóstolos.

Referência bibliográfica

NOVAK, Maria da Glória. Tradição Apostólica de Hipólito de Roma – Liturgia e catequese em Roma no século III. Petrópolis-RJ: Editora Vozes, 1981.

Livro de Daniel


PUC – PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS
CURSO DE TEOLOGIA
DISCIPLINA DE APOCALÍPTICA DO ANTIGO TESTAMENTO
ACADÊMICO: JOSÉ FÁBIO REIS DE OLIVEIRA



LIVRO DE DANIEL

Tradução da Perícope – Dn 7,1-28

¹No primeiro ano de Baltazar, rei da Babilônia, Daniel, em seu leito, teve um sonho e visões que perturbaram seus pensamentos. Depois anotou o sonho por escrito, contando a seguinte narração:
²Disse Daniel:
Estando eu observando a minha visão noturna, olhei e vi do céu quatro ventos que sacudiam o enorme mar, ³como também quatro feras monstruosas diferentes uma das outras que subiam do mar.
4A primeira parecia um leão e tinha asas de águia. Quando a observava, foram tiradas suas asas; foi erguida e colocada de pé sobre suas patas semelhantes a um ser humano, tendo recebido um coração humano.
5A segunda já foi diferente; parecia um urso, em pé abre as portas e tinha três costelas na boca, entre os dentes. E a esta falavam:
“Vai levanta e devora bastante carne”.
6A terceira parecia um leopardo; tinha sobre as costas quatro asas de ave, possuía ainda quatro cabeças e a essa ainda foi lhe dado o poder.
7Depois de ter observado essas visões noturnas, vi a quarta fera. Era terrível, espantosa e extremamente forte: tinha grandes dentes de ferro, comia, triturava e calcava aos pés o que restava. Era desigual as outras três feras que eu tinha visto; essa tinha dez chifres.
8Enquanto olhava aqueles chifres, observei que tinha entre eles outro chifre, mas esse era pequeno, sendo que foram tirados três dos primeiros chifres pela raiz, diante do pequeno que tinha olhos humanos e uma boca que falava palavras arrogantes.
9 Continuei observando e vi alguns tronos sendo preparados e em um dos tronos sentou-se um Ancião, que tinha vestes brancas como a neve, e os cabelos da cabeça eram alvos como a lã. O trono que pertencia ao ancião tinha chamas de fogo, com círculos de fogo ardente.
10 Corria um rio de fogo, que diante dele ia irrompendo. Serviam-no mil e milhares, como também miríades de miríades o assistiam.
O Tribunal tomou assento, sendo nele abertos os livros.
11 Continuei observando, quando vi a fera sendo morta, em meio o causa do barulho das palavras arrogantes que falara aquele chifre. E o cadáver da fera foi destruído e jogado para queimar no fogo.
12 Com relação às outras feras, o poder lhes for retirado, porém receberam, por data e tempo determinados, um maior prolongamento de vida.
13 Continuei observando em minhas visões noturnas, quando vi um como Filho de Homem, vindo sobre as nuvens do céu. Imediatamente aproximou-se do Ancião e foi-lhe apresentado.
14 Foram-lhe dados o poder, a honra e o reino, além de o servirem os povos, as nações e as línguas. E jamais passará seu império, porque ele é eterno e o seu reino nunca será arruinado.
15 Ansioso ainda estava o meu espírito e completamente perturbado com as visões na minha cabeça, quando eu, Daniel, 16 cheguei próximo a um dos que estavam ali presentes e pedi que falasse a verdade com relação a toda situação. Ele disse-me e assim me fez conhecer a interpretação de todas essas coisas da seguinte maneira:
17 As quatros grandes feras são quatros grandes reis que se ergueram da terra.
18 Os que receberão o reino são os santos do Altíssimo e a eles cabem o dever de conservar o reino para sempre, de eternidade em eternidade.
19 Daniel, ainda procurou saber a verdade a respeito da quarta fera. Ela tinha diferença com relação às outras; era terrível, tinha dentes de ferro e garras de bronze, comia e triturava e depois calcava aos pés o que restava.
20Também procurou saber a respeito dos dez chifres que a fera possuía em sua cabeça e do outro chifre que apareceu e dos três primeiros que caíram por causa dele. Esse chifre possuía olhos e boca que dizia palavras arrogantes e, além de tudo, tinha aparência majestosa mais que os outros chifres.
21 Quando eu estava observando esse chifre, ele promovia guerra aos santos e prevalecia sobre eles, 22 chegando o momento em que viera o ancião e fez o julgamento em benefício dos santos do Altíssimo, ao ponto de os santos entrarem na posse do reino.
23 E continuou a dizer:
“A quarta fera será o quarto reino da terra, diferente dos outros reinos. Ela devorará a terra completamente e vai calcá-la a seus pés e a esmagará. 24 Com relação aos dez chifres: são dez reis que aparecerão e outro que se erguerá depois deles; este não será igual aos primeiros e combaterá três reis.
25 Falará insultos contra o Altíssimo e colocará à prova os santos do Altíssimo; tentando modificar os tempos e a Lei, e os santos vão ser entregues em suas mãos por um determinado tempo, tempos e metade de um tempo.
26 Mas o tribunal dará audiência e o domínio lhe será tirado, destruído e reduzido a nada até o fim.
27 E serão entregues ao povo dos santos do Altíssimo o reino, o poder e as grandezas dos reinos sob todos os céus. Até porque o seu reino é eterno e os poderes lhe servirão e prestarão obediência.”
28 Assim termina a narrativa. Eu, Daniel, fiquei bastante perturbado, em meus pensamentos a ponto do meu rosto mudar de cor. Tudo isso guardei em meu coração.

Comentário do livro de Daniel

O livro de Daniel de acordo com o cânon da Bíblia grega está fixado nos livros proféticos, entre os livros de Ezequiel e Oséias, embora não tenha nenhuma representação profética. Ele foi escrito no séc. II a. C. e está dividido em três partes: A primeira (1—6) fala de amplos relatos, situados na corte de diversos reis pagãos. É uma narrativa didática. A segunda parte (7—12) mostra as cinco visões apocalípticas. A terceira parte (13¬—14) é um acréscimo posterior e a história dos sacerdotes de Bel na Babilônia e a história de Suzana, que foi injustamente acusada.
Com relação aos textos e versões, o livro de Daniel está escrito em três línguas: o hebraico (Dn 1.8.12); no aramaico (Dn 2—7) e o grego (Dn 3,24-97 e 13—14). O capítulo 7 é a perícope escolhida para este trabalho estão escritas em aramaico.
O personagem principal da maioria dos relatos e das visões contidas nesse livro é Daniel. Isso não significa que ele seja o autor; ao contrário, o livro de Daniel é fruto de vários autores de diversas épocas.
O livro de Daniel é todo apocalíptico, isto não quer dizer que o livro esteja transmitindo desespero, medo, mas sim esperança. Quem escreveu esse livro sabia o que estava escrevendo, conhecia a cultura, a tradição e os escritos anteriores de sua gente. O livro de Dn é como um quebra-cabeças. Cada peça separadamente não diz nada. O sentido vem de toda a história que o povo viveu e o autor registrou. Outro fato importante está no capítulo 7, em que o autor usa de um recurso literário interessante para falar da mensagem que queria passar, justamente nessa perícope que narra à história de Daniel e as visões. Essa perícope se encontra numa narrativa apocalíptica, porque utilizasse de símbolos para dar sentido a história, ou seja, conta-se uma história fazendo denuncia genérica e velada. Falando do reinado e chamando a atenção para um sentido de esperança na certeza da ação de Deus na história.

Delimitação da Perícope

A perícope escolhida, Dn 7,1-28, se inicia e termina nestes versículos por causa da coerência da história que se inicia com Daniel. É uma nova perícope porque começa uma nova história, mudança de tempo, rei, personagem, Começando assim a história das visões no reinado de Baltazar, enquanto, no capítulo anterior, o texto falava da história de Daniel na cova dos leões. Portanto, o espaço e o tempo são diferentes, além de ser novo tema.
No versículo 18 está o meio da perícope onde começa a interpretação das visões, dando desenvolvimento e continuidade à perícope, mostrando o contexto literário das visões de forma lógica e ampla, dando um percurso à história com início, meio e fim. E além de tudo, as frases dão uma conexão a toda perícope, como podemos observar na análise lingüística.
No fim da perícope, o próprio Daniel termina com a sua narrativa.

Análise Lingüística

¹ No primeiro ano de Baltazar, rei da Babilônia, Daniel, em seu leito, teve um sonho e visões que perturbaram seus pensamentos. Depois anotou o sonho por escrito, contando a seguinte narração:
Neste versículo inicia a história das visões de Daniel, observa-se que Daniel sonhou, em seguida, começou a contar o sonho, ou melhor, o autor não dá importância à rapidez do sonhar e logo contar a narração do sonho.
² Disse Daniel:
Estando eu observando a minha visão noturna, olhei e vi do céu quatro ventos que sacudiam o enorme mar.
A presença de ventos e mar quer dizer que Deus vai agir. São símbolos da Teofania Acalmando a ventania e o mar, o próprio Deus agindo.
³ Como também quatro feras monstruosas diferentes uma das outras que subia do mar.
As feras que são relatadas neste versículo são animais mitológicos.
4 A primeira tinha asas de águia parecendo um leão. Quando a observava foram tiradas suas asas, foi erguida e colocada de pé sobre suas patas semelhantes a um ser humano, tendo recebido um coração humano.
A primeira fera, um leão, se refere ao perigoso império Babilônico, que cresce e expande seu reinado. Se colocando de pé sobre suas patas quer dizer que o rei perdeu as forças, o poder, e se tornou como qualquer outro humano.
5 A segunda já foi diferente, parecia um urso, erguido um lado e tinha três costelas na boca, entre os dentes. E a esta falavam: “Vai levanta e devora bastante carne”.
A segunda fera, um urso, devorava a todos, representa os medos; eles que sucederam aos babilônios e foram menos perigosos.
6A terceira parecia um leopardo; tinha sobre as costas quatro asas de ave, possuía ainda quatro cabeças e a essa ainda foi lhe dado o poder.
A terceira fera, o leopardo, é mais perigosa que a anterior, tem asas e sai engolindo tudo. Representa o reino dos persas. Quando fala das cabeças são os quatro canto do mundo. Esse poder que lhe foi dado não veio de outros, a não ser do próprio Deus.
7 Depois de ter observado essas visões noturnas, vi a quarta fera. Era terrível, espantosa, e extremamente forte: tinha grandes dentes de ferro, comia, triturava e calcava aos pés o que restava. Era desigual as outras três feras que eu tinha visto, essa tinha dez chifres. 8Enquanto olhava aqueles chifres, observei que tinha entre ele, outro chifre, mas esse era pequeno, sendo que foram tirados três dos primeiros chifres pela raiz, diante do pequeno que tinha olhos humanos e uma boca que falava palavras arrogantes.
A quarta fera é a pior de todas está muito bem armada. Representa o reino de Alexandre, o grande. Ela era considerada diferente porque possuía mais poder que as outras.
Os chifres representam a família dos selêucidas, dez gerações. O chifre pequeno representa Antíoco IV. Os olhos humanos é para vigiar os judeus como Antíoco IV fazia. A boca para dizer arrogância foi o que fez Antíoco IV quando colocou o povo para falar coisas arrogantes, colocando o povo para negar a fé.
9Continuei observando e vi alguns tronos sendo preparados e em um dos tronos sentou-se um Ancião, que tinha vestes brancas como a neve; e os cabelos da cabeça, alvos como a lã. O trono que pertencia ao ancião tinha chamas de fogo, com círculos de fogo ardente.
10Corria um rio de fogo, que diante dele ia irrompendo. Serviam-se mil e milhares, como também miríades de miríades o assistiam.
O Tribunal tomou assento, sendo nele abertos os livros selados.
O trono significa um rei especial, o rei que tem a função de juiz, vestido de branco, uma figura mitológica. O ancião a que se refere não é uma pessoa velha, mas uma pessoa sábia.
O fogo representa o fogo divino que destrói, permanecendo somente a sabedoria. A roda de fogo é a presença e a glória de Deus que acompanham o povo. Com os livros selados não se entende nada; eles precisam ser abertos, mas quem vai abri-los são os juízes, aqueles que julgam.
11 Continuei observando, quando vi a fera sendo morta, por causa do barulho das palavras arrogantes que falara aquele chifre. E o cadáver da fera foi destruído e jogado para queimar no fogo.
12 Com relação às outras feras, também as retiraram o poder, porém receberam-se, por data e tempo determinados, um maior prolongamento de vida.
Observa-se que neste versículo mostra um prolongamento da vida, pois é próprio do apocalipse dar um tempo.
13 Continuei observando em minhas visões noturnas, quando vi um como Filho de Homem, vindo sobre as nuvens do céu. Imediatamente chegou-se até o Ancião e foi-lhe apresentado.
O povo pensava que ele vinha da nuvens do céu; o filho do homem é o governo de Deus; não representa uma pessoa como no Novo Testamento, ou seja, o Messias como figura humana.
14 Foram-lhe dados o poder, a honra e o reino, além de o servirem: os povos, as nações e as línguas. E jamais passará seu império, até porque, ele, o seu império é eterno e o seu reino nunca será arruinado.
Quando fala de poder, a honra, a glória quer dizer que eles vêm com tudo para fazer o reino acontecer.
15 Ansioso ainda estava o meu espírito e completamente perturbado com as visões na minha cabeça, quando eu, Daniel,
16 cheguei próximo a um dos que estavam ali presentes e pedi que falasse a verdade com relação a toda situação. Ele disse-me e assim me fez conhecer a interpretação de todas essas coisas da seguinte maneira:
No apocalipse sempre tem um para explicar, para desvelar, seja um anjo ou outras figuras.
17 As quatros grandes feras são quatros grandes reis que se ergueram da terra.
18Os que receberão o reino são os santos do altíssimo e a eles cabem o dever de conservar o reino para sempre, de eternidade em eternidade.
19 Daniel, ainda procurou saber a verdade a respeito da quarta fera. Ela tinha diferença com relação às outras; era terrível, tinha dentes de ferro e garras de bronze, comia e triturava e depois calcava aos pés o que restava.
A partir do versículo 17, começam as explicações das visões. Nesses versículos se fala mais detalhado do quarto animal.
20Também procurou saber a respeito dos dez chifres que a fera possuía em sua cabeça e o outro chifre que apareceu e os três primeiros caíram por causa dele. Esse chifre possuía olhos e boca que dizia palavras arrogantes, e além de tudo tinha aparência majestosa mais que os outros chifres.
21 Quando eu estava observando esse chifre, ele promovia guerra aos santos e prevalecia sobre eles,
22 chegando o momento em que viera o ancião e fez o julgamento em benefício dos santos do Altíssimo. Ao ponto de os santos entrarem na posse do reino.
23 E continuou a dizer:
“A quarta fera será o quarto reino da terra, diferente dos outros reinos. Ela devorará a terra completamente e vai calcar a seus pés e a esmagará.
24 Com relação aos dez chifres: são dez reis que aparecerão e outro que se erguerá depois deles; este não será igual aos primeiros e combaterá três reis.
O quarto reino tem dez chifres que representam os dez reis da dinastia dos selêucidas.
25 Falará insultos contra o Altíssimo e colocará à prova os santos do Altíssimo; tentando modificar os tempos e a Lei, e os santos vão ser entregues em suas mãos por um determinado tempo, tempos e metade de um tempo.
26 Mas o tribunal dará audiência e o domínio lhe será tirado, destruído e reduzido a nada até o fim.
27 E serão entregues ao povo dos santos do Altíssimo o reino, o poder e as grandezas dos reinos sob todos os céus. Até porque o seu reino é eterno e os poderes lhe servirão e prestarão obediência.”
Do versículo 23 ao 27 continua a interpretação. Quando se fala do tempo foi quando Antíoco IV quis mudar o calendário. Mas não deu certo. O povo já tinha seu calendário oficial. Também o tempo equivale a um ano, ou seja, três anos e meio ou três tempos e meio.
28 Assim termina a narrativa. Eu, Daniel, fiquei bastante perturbado, em meus pensamentos ao ponto do meu rosto mudar de cor. Tudo isso guardei em meu coração.
No versículo 28 termina a narrativa, com Daniel falando dos seus sentimentos a respeito das visões.
Tudo neste texto acaba bem: os grandes são humilhados e os pequenos exaltados, isto é sinal de esperança. Daniel quer falar da realidade da história dos impérios tudo acaba! Só Deus fica.
Análise Pragmática

A intenção primeira do autor do livro de Daniel é transmitir uma mensagem de esperança e força. Até porque ele, o autor, apenas registrou situações e tempos de conflitos, escrevendo de forma velada, usando códigos e símbolos que registram as experiências e os sentimentos da sua comunidade. O objetivo do autor é abrir os olhos para a realidade na certeza de que, na força da fé de sua comunidade Deus dirige a história, mesmo que pareça contrário. Olhando para o passado, o autor interpreta o presente e acredita que o futuro vai ser diferente, pois Deus vai agir.
Portanto, a intenção do autor é transmitir esperança para o povo que está vivenciando uma história de sofrimento e perseguição.

Hermenêutica

O Livro de Daniel quer transmitir uma mensagem de esperança do Deus da história, tendo a confiança e sendo fiel a Deus tende-se a concepção de se identificar com os que sofrem por sua causa, é tanto que Dn 7 fala dos “Santos do Altíssimo” e do “povo dos Santos do Altíssimo”.
Quando o capítulo 7 nos fala das visões, não é que Daniel tivesse uma visão propriamente dita como está escrita. Essas visões são uma maneira de expressar o que iria acontecer, não que ele tenha visto e ouvido diretamente a visão é de tanto que ele precisa de explicação para saber interpretar a visão. As visões são gêneros literários mostrando a expressão de uma experiência. É justamente neste capitulo que Daniel mostra que os humildes serão exaltados e os poderosos caíram por terra.
Assim, diante das perseguições e do sofrimento se deve ter a fidelidade a Deus. Tendo a esperança de ser o povo do santo do Altíssimo. E a exemplo do povo perseguido, busquemos no nosso dia-a-dia ser fieis a Deus sem perder a esperança naquele que é o Senhor da história que quer a conversão de seus filhos, sem jamais prender a esperança. Não que o livro de Daniel venha nos passar uma mensagem de retribuição onde eu dou a Deus e quero em troca, ao contrário, o livro nos mostra que mesmo com a experiência sofrida da comunidade devemos ser confiantes, porque sabemos que Deus é Senhor da história e que vale a pena perseverar nos caminhos da verdade que o Senhor nos mostra a partir das Sagradas Escrituras.