FACULDADE SÃO BENTO DA BAHIA
LICENCIATURA EM FILOSOFIA
Filosofia da Natureza
Professor: Paulo Vasconcelos
Graduando: Gildevan Pinto Rocha
Relação Homem/Natureza na cosmogonia mítica: os mitos da criação do universo
Na perspectiva cosmogenica, o universo se encontra em expansão; na medida em que avança mostra-se concriativo e auto-organizativo. Ele não atingiu sua perfeição, está ainda nascendo e se aperfeiçoando. É nesse ambiente mítico que a cosmovisão traz um campo de representações de diferente natureza, que formam a imagem do universo que uma sociedade projeta para orientar-se e para situar o lugar do ser humano no conjunto dos seres. Essa abordagem cosmológica estrutura-se no âmbito místico e simbólico da realidade.
Origem do mundo e da humanidade (segundo o livro sagrado do Gênesis)
No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas.
Então Deus disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra. E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher. E Deus os abençôo e lhes disse: sejam fecundos, multipliquem-se, encham e submetam a terra; dominem os peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam sobre a terra. E Deus disse: vejam! Eu entrego a vocês todas as ervas que produzem semente e estão sobre toda a terra, e todas as árvores em que há frutos que dão semente: tudo isso será alimento para vocês. E para todas as feras, para todas as aves do céu e para todos os seres que rastejam sobre a terra e nos quais há respiração de vida, eu dou a relva como alimento. E assim se fez. E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã: foi o sexto dia. (Gn 1, 1-2.26-31)
A narrativa da criação não é um tratado científico, mas um poema que contempla o universo como criatura de Deus. Foi escrito pelos sacerdotes no tempo do exílio da Babilônia (586-538 a.C.) e procura salientar vários pontos. Primeiro, que existe um único Deus vivo e criador. Segundo, que a natureza não é divina, nem está povoada por outras divindades. Terceiro, que o ponto mais alto da criação é a humanidade: homem e mulher, ambos criado à imagem e semelhança de Deus. E a humanidade é chamada a dominar e a transformar o universo, participando da obra da criação.
Noutra situação mítica, observe a curiosa narrativa inventada pelo cientista David Browner, contabilizando percentualmente os bilhões de anos da vida de Gaia (terra) em seis dias (referencia à narrativa Bíblica do Gênesis) para demonstrar, ao cabo, que, na história de Gaia, a existência da vida humana é um episódio breve e recente:
No cenário de Browner, a terra é criada ao domingo á zero hora. A vida, na forma das primeiras células bacterianas, aparece na terça-feira de manhã, por volta das 8 horas. Durante os dois dias e meio seguintes, o microcosmo evolui, e por volta da quinta-feira à meia-noite, está plenamente estabelecido, regulando todo o sistema planetário. Na sexta-feira. Por volta das dezesseis horas, os microorganismos inventam a reprodução sexual, e no sábado, o último dia da criação, todas as formas de vida visíveis se desenvolvem.
Por volta de 1:30 da madrugada do sábado, os primeiros animais marinhos são formados, e, por volta das 9:30 da manhã, as primeiras plantas chegam às praias, seguidas, duas horas mais tarde, por anfíbios e por insetos. Dez minutos antes das dezessete horas, surgem os grandes répteis, perambulam pela Terra em luxuriantes florestas tropicais durante cinco horas, e então, subtamente, morrem por volta por volta das 21:45. Enquanto isso, os mamíferos chegam à terra no final da tarde, por volta das 17:30 e os pássaros já á noitinha, cerca de 19:15 horas.
Pouco antes das 22 horas, alguns mamíferos tropicais que habitavam árvores evoluem nos primeiros primatas; uma hora depois, alguns destes evoluem em macacos; e por volta das 23:40 aparecem os grandes símios antropóides. Oito minutos antes da meia-noite, os primeiros símios antropóides do sul se erguem e caminham sobre duas pernas. Cinco minutos mais tarde, desaparecem novamente. A primeira espécie humana, o homo habilis, surge quatro minutos antes da meia-noite, evolui no homo erectus meio minuto mais tarde e, nas formas arcaicas do homo sapiens, trinta segundos antes da meia-noite. Os Neandertais comandam a Europa e a Ásia de quinze a quatro segundos antes da meia-noite.finalmente, a espécie humana moderna aparece na África e na Ásia onze segundos antes da meia-noite. A história humana escrita começa por volta de dois terços de segundo antes da meia-noite.
Numa linguagem e abordagem mais precisamente filosófica, Higino, em uma composição poética intitulada “o filho da inquietação”, transmite-nos um belo e muito antigo relato. Trata-se de um mito que apresenta o ser humano saindo das mãos de um oleiro, que no caso é a Inquietação:
Esta nos é apresentada em certa ocasião atravessando um rio e enxergando um lugar onde havia argila. Inquietação pega um punhado de barro e lhe dá forma. Ao terminar fica refletindo no que havia feito. Nesse exato momento, chega Júpiter. Inquietação pede ao deus que infunda espírito em sua imagem de argila. Júpiter atende, em seguida, Inquietação quer dar nome à sua obra. Júpiter, porém, a proíbe, porque acha que o homem tem o direito de escolher o próprio nome, já que lhe foi infundido o espírito. Enquanto discutem, Tellus, a Terra, levanta-se e exige que a imagem receba seu nome, pois esta havia sido elaborada a partir de um pedaço de seu corpo. Nessas alturas da discussão, os contendentes decidem pegar saturno como juiz, e este emite equitativamente a sentença: Tu, Júpiter, deves recuperar o espírito após a morte, pois lhe infudiste o espírito; tu, Tellus, já que porvidenciaste o corpo, deves acolhe-lo novamente; Inquietação, porém, como foi a primeira a ter a idéia de fazer a imagem, deve possuí-la enquanto viva. Todavia, no que diz respeito à atual discussão sobre o nome, ela deve chamar-se homo, pois foi feita do húmus (terra).
Temos aqui, diante desses dados mitológicos de abordagem cósmica o ápice da vida do mito, a sua dimensão simbólica e mística na construção da realidade.
Bibliografia:
OLIVEIRA, Jelson; BORGES, Wilton. Ética de Gaia: ensaios de ética socioambiental. São Paulo: Paulus, 2008.
MARDONES, José María. A vida do símbolo: a dimensão simbólica da religião, trad. Euclides Martins Balancin, São Paulo: Paulinas, 2006. (coleção espaço filosófico).
BOFF, Leonardo. O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade. Petrópolis: Vozes, 9ª Ed. 1998.
LICENCIATURA EM FILOSOFIA
Filosofia da Natureza
Professor: Paulo Vasconcelos
Graduando: Gildevan Pinto Rocha
Relação Homem/Natureza na cosmogonia mítica: os mitos da criação do universoNa perspectiva cosmogenica, o universo se encontra em expansão; na medida em que avança mostra-se concriativo e auto-organizativo. Ele não atingiu sua perfeição, está ainda nascendo e se aperfeiçoando. É nesse ambiente mítico que a cosmovisão traz um campo de representações de diferente natureza, que formam a imagem do universo que uma sociedade projeta para orientar-se e para situar o lugar do ser humano no conjunto dos seres. Essa abordagem cosmológica estrutura-se no âmbito místico e simbólico da realidade.
Origem do mundo e da humanidade (segundo o livro sagrado do Gênesis)
No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas.
Então Deus disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra. E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher. E Deus os abençôo e lhes disse: sejam fecundos, multipliquem-se, encham e submetam a terra; dominem os peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam sobre a terra. E Deus disse: vejam! Eu entrego a vocês todas as ervas que produzem semente e estão sobre toda a terra, e todas as árvores em que há frutos que dão semente: tudo isso será alimento para vocês. E para todas as feras, para todas as aves do céu e para todos os seres que rastejam sobre a terra e nos quais há respiração de vida, eu dou a relva como alimento. E assim se fez. E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã: foi o sexto dia. (Gn 1, 1-2.26-31)
A narrativa da criação não é um tratado científico, mas um poema que contempla o universo como criatura de Deus. Foi escrito pelos sacerdotes no tempo do exílio da Babilônia (586-538 a.C.) e procura salientar vários pontos. Primeiro, que existe um único Deus vivo e criador. Segundo, que a natureza não é divina, nem está povoada por outras divindades. Terceiro, que o ponto mais alto da criação é a humanidade: homem e mulher, ambos criado à imagem e semelhança de Deus. E a humanidade é chamada a dominar e a transformar o universo, participando da obra da criação.
Noutra situação mítica, observe a curiosa narrativa inventada pelo cientista David Browner, contabilizando percentualmente os bilhões de anos da vida de Gaia (terra) em seis dias (referencia à narrativa Bíblica do Gênesis) para demonstrar, ao cabo, que, na história de Gaia, a existência da vida humana é um episódio breve e recente:
No cenário de Browner, a terra é criada ao domingo á zero hora. A vida, na forma das primeiras células bacterianas, aparece na terça-feira de manhã, por volta das 8 horas. Durante os dois dias e meio seguintes, o microcosmo evolui, e por volta da quinta-feira à meia-noite, está plenamente estabelecido, regulando todo o sistema planetário. Na sexta-feira. Por volta das dezesseis horas, os microorganismos inventam a reprodução sexual, e no sábado, o último dia da criação, todas as formas de vida visíveis se desenvolvem.
Por volta de 1:30 da madrugada do sábado, os primeiros animais marinhos são formados, e, por volta das 9:30 da manhã, as primeiras plantas chegam às praias, seguidas, duas horas mais tarde, por anfíbios e por insetos. Dez minutos antes das dezessete horas, surgem os grandes répteis, perambulam pela Terra em luxuriantes florestas tropicais durante cinco horas, e então, subtamente, morrem por volta por volta das 21:45. Enquanto isso, os mamíferos chegam à terra no final da tarde, por volta das 17:30 e os pássaros já á noitinha, cerca de 19:15 horas.
Pouco antes das 22 horas, alguns mamíferos tropicais que habitavam árvores evoluem nos primeiros primatas; uma hora depois, alguns destes evoluem em macacos; e por volta das 23:40 aparecem os grandes símios antropóides. Oito minutos antes da meia-noite, os primeiros símios antropóides do sul se erguem e caminham sobre duas pernas. Cinco minutos mais tarde, desaparecem novamente. A primeira espécie humana, o homo habilis, surge quatro minutos antes da meia-noite, evolui no homo erectus meio minuto mais tarde e, nas formas arcaicas do homo sapiens, trinta segundos antes da meia-noite. Os Neandertais comandam a Europa e a Ásia de quinze a quatro segundos antes da meia-noite.finalmente, a espécie humana moderna aparece na África e na Ásia onze segundos antes da meia-noite. A história humana escrita começa por volta de dois terços de segundo antes da meia-noite.
Numa linguagem e abordagem mais precisamente filosófica, Higino, em uma composição poética intitulada “o filho da inquietação”, transmite-nos um belo e muito antigo relato. Trata-se de um mito que apresenta o ser humano saindo das mãos de um oleiro, que no caso é a Inquietação:
Esta nos é apresentada em certa ocasião atravessando um rio e enxergando um lugar onde havia argila. Inquietação pega um punhado de barro e lhe dá forma. Ao terminar fica refletindo no que havia feito. Nesse exato momento, chega Júpiter. Inquietação pede ao deus que infunda espírito em sua imagem de argila. Júpiter atende, em seguida, Inquietação quer dar nome à sua obra. Júpiter, porém, a proíbe, porque acha que o homem tem o direito de escolher o próprio nome, já que lhe foi infundido o espírito. Enquanto discutem, Tellus, a Terra, levanta-se e exige que a imagem receba seu nome, pois esta havia sido elaborada a partir de um pedaço de seu corpo. Nessas alturas da discussão, os contendentes decidem pegar saturno como juiz, e este emite equitativamente a sentença: Tu, Júpiter, deves recuperar o espírito após a morte, pois lhe infudiste o espírito; tu, Tellus, já que porvidenciaste o corpo, deves acolhe-lo novamente; Inquietação, porém, como foi a primeira a ter a idéia de fazer a imagem, deve possuí-la enquanto viva. Todavia, no que diz respeito à atual discussão sobre o nome, ela deve chamar-se homo, pois foi feita do húmus (terra).
Temos aqui, diante desses dados mitológicos de abordagem cósmica o ápice da vida do mito, a sua dimensão simbólica e mística na construção da realidade.
Bibliografia:
OLIVEIRA, Jelson; BORGES, Wilton. Ética de Gaia: ensaios de ética socioambiental. São Paulo: Paulus, 2008.
MARDONES, José María. A vida do símbolo: a dimensão simbólica da religião, trad. Euclides Martins Balancin, São Paulo: Paulinas, 2006. (coleção espaço filosófico).
BOFF, Leonardo. O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade. Petrópolis: Vozes, 9ª Ed. 1998.



